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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Jovens denunciam assédio sexual e agressão em seita espiritual em Fortaleza

Ex-membros da Comunidade Afago revelam que eram submetidos a rituais para a cura de traumas do passado, que continham abusos e violência física. Conforme os relatos, prática era liderada por um estudante de Filosofia

Legenda: Comunidade Afago não tem endereço fixo em Fortaleza
Foto: Arquivo pessoal

Abusos sexuais, físicos e psicológicos em um lugar supostamente destinado a cura de feridas da alma. Tudo teria acontecido na Comunidade Afago, uma seita espiritual sem endereço fixo em Fortaleza. Com o psicológico frágil em virtude de múltiplas violências do passado, as vítimas buscavam amparo, mas afirmam que ficaram com cicatrizes ainda mais profundas pois contam que eram obrigadas a passar por rituais que envolviam a manipulação de órgãos sexuais, ejaculação e agressões em nome de uma falsa recuperação. 

Os abusos e agressões teriam ocorrido entre 2018 e o ano passado. As práticas eram supostamente orquestradas por Pedro Ícaro de Medeiros, o Ikky. Acadêmico da graduação em Filosofia em uma universidade pública, ele se apresentava como o mestre espiritual da Afago, que já chegou a ter 200 participantes na faixa etária de 20 anos. O conteúdo da denúncia foi revelado na noite de ontem em reportagem do programa Fantástico, da TV Globo.


Além do tratamento, a comunidade do estudante atraía pelos projetos sociais e cursos terapêuticos baratos, embora estes não tivessem nenhuma certificação válida. À reportagem, o advogado do suspeito apresentou apenas o certificado de um curso de acupuntura, que não o autoriza a ministrar aulas.

O Ministério Público do Ceará (MPCE) requisitou à Polícia Civil a abertura de um inquérito para investigação do caso. Os depoimentos começaram a ser coletados na última quinta-feira (16), segundo a advogada Thayná Silveira. “Ele (Ícaro) pegou esses jovens que estavam querendo pertencer a alguma coisa, que estavam em busca de cura de traumas sexuais, de traumas familiares e as manipulou”, afirma.

Fim do silêncio

Legenda: As práticas eram supostamente orquestradas pelo acusado
Foto: Arquivo pessoal

Contudo, os seguidores romperam o código de silêncio imposto na comunidade já no início deste ano. Entre os relatos feitos à reportagem do Fantástico, denúncias de agressão e estupro.

“Não só pra mim, mas para uma roda de pessoas, ele dizia muitas vezes que o p... (órgão sexual) dele era mágico”, disse uma vítima do sexo masculino. Outro homem afirmou que Ikky o obrigou a ter relações sexuais. “Eu estava chorando, sangrando e eu esperava dele um pouco de humanidade. O que ele fez foi tirar minha blusa e colocar minha blusa na minha boca para que parasse de chorar e ele pudesse continuar”.

Já uma mulher, também de identidade preservada, comentou os impactos negativos em sua saúde mental após as vivências no lugar. “Eu entrei na Afago já num momento frágil psicologicamente. E fui ficando cada vez mais frágil e culminou numa crise de depressão muito intensa”.

As acusações também miram a prática de estelionato. Segundo a recepcionista Pamela Magalhães, a única a mostrar o rosto em entrevista ao Fantástico, “a cada semestre ele aumentava o valor desses cursos, tanto que quando eu entrei era R$50 e quando eu saí um determinado curso já era R$ 1.500”.

Outro aluno disse que ao fim do ciclo de aulas, não houve a entrega do certificado. A gente não teve nenhum tipo de certificado, mesmo tendo sido prometido que nós seríamos certificados e poderíamos atuar como terapeutas”.

Ikky ofereceria ainda a terapia tântrica. Uma das vítimas disse que o estudante a incentivou a fazê-la por conta de “muitas questões sexuais mal resolvidas”. O suposto guru alegava que havia recebido formação do Prem Hamido, que tem uma clínica de terapia corporal em Fortaleza. Porém, o terapeuta desmentiu Ícaro durante entrevista ao Fantástico. “Em nenhum momento, eu jamais fiz qualquer curso, que eu tenha ministrado qualquer curso profissional pra ele. Em nenhum momento eu jamais tive qualquer tipo de formação profissionalizante com ele”, ponderou Prem Hamido, complementando que atendeu estudante como cliente uma única vez.
Ritual

Não bastasse as violências praticadas, a comunidade Afago tinha ainda um ritual de batismo que deixava cicatrizes. “Você era batizado com água no chuveiro da casa dele e se você fosse teimoso ou desobediente, ou qualquer uma dessas características rebeldes, né, era queimado com uma pedra quente atrás da nuca, no pescoço”, contou um jovem.

De acordo com os integrantes da comunidade, havia a hierarquização, processo em que os jovens passavam por provas violentas, como a troca de tapas, para subir de escalão. Áudios obtidos pela reportagem mostram a convocação feita pelo próprio Ícaro.

“Quero que vocês tragam na próxima aula (...) o que vocês escreveram sobre levar um tapa na cara e que vocês tragam uma bacia (...) e uma vela. Uma vela grossinha. A bacia tem que ser grande o suficiente pra você poder mergulhar a tua mão ou alguma parte do teu corpo depois que eles forem queimados”, dizia.

O resultado era um só: “As pessoas ficavam muito tontas. Choravam. Eu sempre chorava”, revelou uma vítima. A justificativa para a sequência dolorosa chamava a atenção. “Ele falava que era pro nosso crescimento pessoal e espiritual".

Outro ritual era o “ovo luminoso”, um círculo mais restrito onde cinco homens e duas mulheres são convocados para participar, desde que obedecessem as ordens do estudante. “Para as meninas, ele só pedia o sangue menstrual. Mas pros rapazes, ele dizia que para participar do ovo luminoso, tinha que ter dez sessões de sexo com ele”, detalhou uma vítima.

“O que você precisa para expandir sua identidade é seguir o que você tem nojo, é seguir o que você tem aversão. Então fique com meninos, comece a beijar outros rapazes e tenha relações comigo que sou seu mestre. A partir disso, você vai conseguir essa expansão que você tá procurando”, conta um homem, repetindo o argumento usado pelo guru para convencer os seguidores.
Investigação

O promotor de Justiça Régio Lima Vasconcelos, da 144ª Promotoria do MPCE, afirmou que em análise preliminar foi percebido que os fatos relatados condizem com tipificações de diversos crimes. "Se confirmados, podem ensejar a prática, em tese, dos delitos de lesão corporal, estupro, charlatanismo e curandeirismo, previstos, respectivamente, nos artigos 129, 213, 283 e 284 do Código Penal Brasileiro, cuja eventual responsabilidade criminal não está associada à idade ou aquiescência de possíveis vítimas.

Somente a investigação, com o total esclarecimento dos fatos noticiados, revelará a natureza das atividades da referida comunidade”, afirmou o promotor.

Ao Fantástico, Ícaro disse que no começo deste ano registrou Boletim de Ocorrência alegando ser vítima de calúnia e difamação por parte de pessoas que deixaram a comunidade. O suspeito negou as acusações de estupro, segundo ele, houve relações sexuais com alguns homens, mas elas eram consentidas.

“Muitas das acusações foram racistas, para ser honesto. Não me chamavam só de mago negro, de magia negra. Eles falavam realmente que eu era um fascista. Houve crimes com relação a isso: a eu ser homem, ser negro e ser gay", contou Ícaro ao telefone acrescentando que só participavam dos rituais pessoas que se apresentavam espontaneamente, contestou Ícaro.

O advogado de defesa, Klaus Borges, afirmou que se preparam para protocolar ação em breve contra as pessoas que supostamente estariam caluniando Pedro. Ele também afirmou que seu cliente nega ter cometido qualquer crime.
Desculpas

Os gestores da Comunidade Afago divulgaram nas redes sociais nota oficial afirmando estarem “chocados e abalados com toda a situação”. Conforme a gestão, a dimensão das acusações feitas resultou em confusão psicológica e emocional da liderança.

“A confusão que afeta todos nós, cria um cenário extremamente delicado, dado que ainda não houve tempo de entender e ouvir todas as partes, tendo muitos ainda não entendido as próprias emoções, dado que os respingos dessa crise caíram sobre todos”, conforme trecho divulgado.

A Comunidade também pediu desculpas e afirmou não compactuar com qualquer tipo de abuso, violência e assédio, seja de teor psicológico, simbólico ou sexual.

Fonte: Diário do Nordeste

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