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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

PM ficou ao menos um dia em poder de bandidos antes de ser assassinada

A soldado da PM Juliane dos Santos Duarte, 27, deve ter permanecido por mais de 24 horas em poder de criminosos antes de ser assassinada com um tiro na cabeça. A avaliação é da cúpula da Polícia Militar de São Paulo, após uma primeira perícia no corpo da policial. 

Juliane desapareceu na favela de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista, na madrugada de quinta-feira (2) e seu corpo foi encontrado na noite desta segunda-feira (6) dentro de um carro em Jurubatuba, a 8,5 km de onde havia sido vista pela última vez.

Os exames periciais apontaram que a soldado morreu entre 24 horas e 48 horas antes da localização do corpo. Isso significa, de acordo com a polícia, que a morte deve ter ocorrido no sábado (4) ou no domingo (5). Segundo testemunhas, a soldado foi levada por bandidos ainda com vida na madrugada de quinta-feira de um bar de Paraisópolis. Ela teria ficado em poder dos criminosos até que seu destino fosse decidido, em uma espécie de tribunal do crime.

O crime ocorreu em uma região que é reduto da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), onde a própria polícia tem dificuldades para entrar.

O assassinato da PM mobilizou a corporação e resultou em intensa movimentação policial em Paraisópolis nos últimos seis dias, com incursões em becos e sobrevoos de helicópteros na comunidade --onde viviam 63 mil pessoas na última estimativa, de 2012.

A ocupação da favela pela polícia será mantida, segundo a gestão Márcio França (PSB). "Não vamos sair até o momento que tivermos pacificado a situação por lá", afirmou Mágino Alves, secretário estadual da Segurança Pública.

A partir do resultado da perícia sobre a morte da soldado, a outra hipótese da PM é a de Juliane ter recebido os disparos e ter agonizado no porta-malas do veículo por mais de um dia até morrer. Mas essa possibilidade é considerada remota porque, segundo policiais ouvidos pela reportagem, além de tiros na região virilha, ela tinha também duas perfurações na cabeça, que seriam fatais, a entrada a saída do projétil.

Há a suspeita de a policial ter sido morta com a própria arma, uma pistola .40.

Segundo a polícia, não há sinais evidentes de ter havido tortura física.

Até agora, a polícia paulista prendeu um suspeito de participação direta no crime. As investigações sugerem a participação de ao menos mais três criminosos.

De acordo com policiais civis e militares, o único suspeito preso até agora é Everaldo Severino da Silva, 45, conhecido como "Sem Fronteira". Everaldo, que nega participação no crime, seria integrante da facção criminosa PCC e, na região de Paraisópolis, teria a função de ordenar mortes, segundo informações de policiais civis e militares. Policiais esperavam esperar outro suspeito ainda nesta terça (7).

Ainda segundo policiais, dificilmente alguém mataria um policial na comunidade, conhecida como um reduto do PCC, sem uma ordem dos chefes da quadrilha da região. Isso porque a morte de um policial militar, sabidamente, provocaria reações por parte dos colegas e, em caso de repercussão, da cúpula da corporação. Isso explicaria, em tese, a razão pela qual a policial não foi morta em um primeiro momento. Os criminosos provavelmente consultaram instâncias superiores até decretarem a morte dela.

A avaliação dos criminosos leva em conta os prejuízos que operações policiais na favela poderiam provar com a interrupção da venda de drogas. Paraisópolis é considerada uma das principais "bocas de fumo" de toda a capital, responsável pelo abastecimento de cocaína da classe média da zona sul. 

A reação da polícia foi imediata. Desde quinta-feira da semana passada a favela é alvo de uma intensa movimentação de policiais, com incursões nos becos e sobrevoos de helicópteros. Não há prazo para o fim dessas operações. Estão lá equipes do Comando de Operações Especiais, do Canil, do Grupamento Aéreo e das unidades de policiamento da região, assim como todo o contingente da Equipe de PM Vítima (da Corregedoria), todas em conjunto com a Polícia Civil.

Até nesta segunda-feira, os policiais tinham esperança de a PM ser encontrada com vida, embora conscientes de que as chances eram muito pequenas pelo perfil do crime. Essas chances foram reduzidas ainda mais quando, na sexta-feira (3), a moto da policial (que ela usava na noite que sumiu) foi encontrada em outro ponto da cidade e deixada por um homem desconhecido. 

Policiais avaliam que, embora seja uma tragédia indiscutível, a PM morta não seguiu procedimentos de segurança orientados pela tropa. Um deles é ter se colocado em um ambiente vulnerável: uma favela gigantesca, com 63 mil habitantes e forte presença do crime organizado.

Além disso, após ingerir bebida alcoólica, a soldado teria sacado a arma para resolver um furto de celular, embora estivesse sozinha em local sem apoio rápido. Na mesma favela, até policiais de serviço já foram atacados -alguns relatando o uso de armas .30 (capazes de derrubar aeronaves).

Segundo testemunhas, após Juliane se identificar como policial nesse bar, frequentadores do espaço informaram aos bandidos sobre a presença dela. Quatro deles teriam aparecido, três deles com capuz, e levado a PM para um local desconhecido, após ter acertado um tiro na perna dela.

Os riscos até para os policiais na favela de Paraisópolis foram evidenciados em novembro do ano passado pela diretora do DHPP (Departamento de Homicídios), a delegada da Polícia Civil ElisabeteSato. Durante evento sobre segurança pública, ela disse que a polícia paulista enfrentava problemas ao entrar em favelas, incluindo Paraisópolis. "Eu converso muito com nossos investigadores. E nossos investigadores me falaram na semana passada: 'Diretora, está difícil entrar em Paraisópolis [...] Nem a PM nem a Rota estão entrando lá'", disse.

Na época, o governo negou tal dificuldade e, em resposta à delegada, a PM fez operações naquele mesmo dia. Na ocasião, o ainda secretário da Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, também reagiu às afirmações da delegada. "A afirmação de que as polícias de São Paulo têm dificuldade em cumprir seu trabalho, seja em comunidades ou em qualquer outro lugar, é o mais completo absurdo." Ele citou operações e prisões recentes na favela de Paraisópolis.

Moradores da região, porém, deram razão à delegada.

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